- A GRAVIDEZ
“foi um ano muito importante para mim. Estava grávida pela primeira vez e queria ter um parto normal.Afinal minha mãe havia parido quatro bebês, porque eu não conseguiria? Nunca pensei em cesárea, e mesmo com algumas conhecidas me perguntando se “eu queria mesmo sentir essa dor?”, ao que eu sempre respondia com um enorme sorriso “sim”, eu estava certa de que isso era o normal, o natural, o real. Acreditava piamente que as mulheres que precisaram da cirurgia, realmente teriam tido problemas de saúde para tal. Para mim elas eram exceções. Nunca passou pela minha cabeça que meu obstetra iria desfazer do que eu queria, nem tampouco “me enganar”. Lembro de meu esposo perguntar se “eu não tinha medo”. Medo do que, pensei depois, eu não estava com nenhuma doença grave,só estava grávida. Eu não tinha medo. Até que chegado o ultimo mês de gravidez, ao realizar alguns exames de rotina, a recepcionista da clinica vira pra mim e pergunta se eu “já tinha marcado a data da operação”. Eu fiquei surpresa e ela mais ainda, quando eu disse que seria parto normal.então ela me explicou que um dos exames era para quem fosse realizar uma cirurgia. A ficha caiu, mas eu ainda não queria acreditar que estava sendo preparada para uma cesárea. Eu já tinha “fugido “ de outra obstetra, pois nos dias de consulta ela passava na frente as mulheres que tinham tido cesárea e iam tirar os pontos com ela(quase todas) e que, quando eu quis tirar uma dúvida sobre um artigo de internet, virou pra mim e disse que se eu “quisesse saber das coisas pela internet, eu não precisava dela”. Mas como eu saberia então, se quando eu perguntava algo ela dizia que eu estava sendo apressada, que ainda não era hora de falar no parto, no alto dos meus seis meses de gravidez??
-O (NÃO) PARTO
As 04:20hs da manha do dia 02 de novembro, minha bolsa rompeu e as 6:00horas eu estava sendo internada. A enfermeira de plantão fez o toque,mas quando me levantei da maca, tudo o que eu conseguia olhar era pra grande mancha de sangue que havia no lençol.como eu não havia sentido nada, eu so conseguia me perguntar se aquele sangue era meu.subimos para o apartamento que eu paguei por fora, pois meu plano era de enfermaria, e meia hora depois a enfermeira veio me colocar o acesso com um soro e “mais um remédio”, disse ela. “é ocitocina?” perguntei, e com uma cara assustada ela me confirmou que sim.
Estavam comigo minha mãe, duas irmãs,meu esposo e meu padrinho.o obstetra chegou por volta de 9 da manha, fez outro toque e me informou que eu continuava com um centímetro de dilatação.mas eu não sentia “as dores”. Eu pensava “cadê a dor?” e não conseguia entender como “ainda estava” com só aquele centímetro, pois nas novelas, a bolsa rompe e imediatamente se subentende que o bebe nasce logo. Mas eu não sabia que ainda não estava em trabalho de parto.
As 9:30 mais ou menos, o médico me perguntou se eu queria esperar mais um pouco ou ele poderia fazer a cesárea. Acho que eu esperava que alguém me dissesse uma palavra pra esperar, mas ninguém falou nada. Então eu decidi:”vamos fazer a cesárea”.enquanto eu aguardava para ir para o bloco cirúrgico, comecei a sentir os lados da minha barriga repuxando aos poucos, a sensação era a de quando apertamos um balão pelos lados e depois soltamos. Poderia ser o inicio de uma contração.mas eu não sabia. Quando vieram me buscar, eu só sabia chorar e perguntar pra enfermeira porque eu não tinha conseguido.ela falava que era assim mesmo, que umas conseguiam,outras não.eu só conseguia me sentir uma ovelha indo pro abatedouro.
- O PÓS CIRÚRGICO
Eu não sabia da lei do acompanhante. Então meu obstetra deixou apenas que meu padrinho entrasse no centro cirúrgico comigo para tirar as fotos, já que ele também era médico. A noite, só minha mãe pôde ficar comigo no quarto.eu queria muito, ao menos, amamentar minha filha. Mas apesar de ter ficado com ela desde que saímos do centro cirúrgico, nenhuma enfermeira me ajudou a iniciar o contato pele a pele. A bebe ficou no bercinho dela, ao lado da minha cama. Lembro de ter pedido ajuda para a plantonista para colocar minha filha na posição de amamentar ao meu lado na cama, mas ela disse que se eu não sabia que eu não tinha bico, que era pra eu ter pedido “pro meu marido fazer o bico pra bebe”. Eu e minha irmã nos entreolhamos, como quem pensa: “oi?como assim?nós ouvimos isso mesmo?” e “que intimidade ela tem pra falar desse jeito?,eu pensei”.minha filha passou a noite chorando de fome e quando eu perguntei se as enfermeiras não tinham nada que pudesse ajudar, elas disseram que a dra não tinha deixado nada escrito, que eu tinha que esperar a dra chegar de manhã e perguntar. A neonatologista chegou por volta de uma hora da tarde do dia seguinte, deu uma ampola para a minha filha chupar (que depois eu descobri ser glicose) virou para mim e apertou o bico dos meus seios com força, como se esperasse que algo jorrasse dali. Eu não sabia que, por causa da cesárea, meu corpo ainda não tinha entendido que o bebe havia nascido e precisava de leite, que só desceu no quarto dia.
Na entrega da declaração de nascido vivo-DNV, outra surpresa: minha filha era “parda”. Questionei com a enfermeira como poderia haver esse quesito no documento, se nem os cartórios tinham mais obriagação de colocar isso nas certidões de nascimento. Ela retrucou que marcara assim tendo em vista a “cor do meu esposo”. Eu disse que a DNV deveria estar preenchida de acordo com a ficha preenchida pela neonatologista, e não de acordo com cor da pessoa. outra tentou me explicar que a Dra olhava a cor da vagina (na menina) e do saquinho(no menino) ”pra dizer a cor da criança”. Mas na ficha da neo,minha filha era “branca”. Quando questionei a neo, ela veio ao quarto, tirou a roupinha e a fralda da minha filha, abriu a perninha dela ,virou, saiu do quarto e sumiu. Fiquei com minha filha exposta ao ar condicionado do quarto em cima da cama, aguardando o retorno da neo
Um dos efeitos da anestesia, em mim, foi sentir um frio imenso, de bater os dentes, quatro horas depois da cirurgia. O obstetra pediu que eu levantasse e andasse para cortar o efeito, mesmo eu não conseguindo levantar-me direito. Eu obedeci, e o frio foi cedendo.apesar de ser recomendado não falar depois da cirurgia, para não dar gases, quem me visitou naquela tarde se espantou de eu estar “falante” mais do que o normal. Desse eu só soube porque me contaram, porque eu não lembro.
-REDE DE APOIO (OU A IMPORTÂNCIA DA)
Já em casa, tinha muita dificuldade para andar, me abaixar ou levantar da cama.eu me sentia exausta! Tive que passar a dormir semi sentada numa cadeira espreguiçadeira, meus seios ficaram do tamanho de duas bolas de basquete, e eu tinha que amarra-los com um lençol como se fosse um biquíni por cima do pescoço, pois o peso era grande. Tive febre, pedi para minha mãe ligar para a santa casa e pedir orientação para tirar o leite, mas os números que passamos a noite ligando não sabiam informar (ou não queriam) sobre o que fazer. Tive que comprar uma bomba elétrica, e só assim pude dar meu leite para minha filha no copinho, com a orientação da AMAMEN – associação dos amigos da amamentação.
Mas a pressão para dar mamadeira , vinda de minha mãe e irmãs,era mais forte que eu. O estresse que eu enferntava entre o que eu queria e o que eu conseguia estava acabando com o meu leite. Minha irmã, me vendo dar leite do peito no copinho, ficava me rodeando,dizendo que eu ia “engasgar a bebe”, minha mãe hostilizou a equipe que foi me visitar e fazer a avaliação das mamas. Sentia-me profundamente desrespeitada e envergonhada, pois minha própria mãe não entendia que eu PRECISAVA DE AJUDA.
Após esse episódio, eu procurei conversar com ela para saber se ela tinha nos amamentado quando crianças. Daí que eu fui descobrir que, na cabeça da minha mãe, “dar de mamar” era com a mamadeira, pois o medico dela dizia que ela não podia dar o seio por causa dos efeitos da anestesia. Acho que ela entendeu que a anestesia ficava para sempre no corpo ou provavelmente minha avó também não tenha tido oportunidade de orientá-la. por isso ela achava muito estranho o modo de como eu queria “dar de mamar” para a minha filha.
Meu leite secou completamente em quatro meses e meio. Até lá, eu dava leite do peito no copinho, e alternava complementando com formula. Eu não pude aguentar mais.










