Ano passado, por motivos de força maior, tive que ficar internada uns dez dias. Assim como todos os pacientes, tive direito a um acompanhante, e fui colocada numa ala de observação, com outra paciente, que também tinha seu acompanhante.
Em dado momento, a acompanhante da outra paciente, que eu percebi ser "fissurada" em "selfies", começou a tirar fotos. MUITAS fotos! Se a paciente se deitava na cama, era uma foto, ia tomar água, era foto, ia ao banheiro, era outra foto. Em um desses momentos, quando ela deitou na cama, de novo, mais foto. Mas dessa vez eu fiquei observando. mais uma, mais uma... e pelo ângulo da câmera do celular, eu SABIA que tinha sido fotografada também! me levantei, reclamei e a acompanhante se achou no direito de, em um ambiente fechado e hospitalar, onde você tem outras pessoas todo o tempo por perto, deixar de CUIDAR da pessoa que ela tinha ido acompanhar lá para tirar fotografia e viver postando na internet!! Pedi a ela que, por favor, apagasse a foto, pois eu não estava me sentindo á vontade. Acompanhei ela fazer isso e ela me pediu desculpas por eu "não ser da mesma opinião que ela". No mínimo, deveria ser uma questão de respeito. Mas ela achava que eu a estava "tolhendo" de alguma coisa.
Em uma de minhas doulagens, encontrei um caso meio semelhante: Uma das residentes veio me pedir pra ver as fotos que eu havia tirado durante o trabalho de parto da minha doulanda, e enquanto eu ia mostrando as fotos para ela, fui notando que ela ficava meio triste. No final, ela disse: "ah, pooxa"!
Aquele "poooxa" ficou martelando na minha mente. Sabe algo que não conseguimos enxergar naquele momento, mas o nosso subconsciente registra? vai ver que até ela não se deu conta! Mas hoje, depois de ler um texto do Ricardo Herbert Jones, caiu a ficha! ela havia sinalizado que ela não queria somente VER AS FOTOS, mas também SE VER nelas!!
Enquanto isso, durante todo o trabalho de parto, eu só pensava "seja de vidro, seja de vidro". Eu fiquei tranquila, pois minha doulanda sabia que, caso ela precisasse, eu estaria por perto.
Mais para a frente, vendo que eu não fui ficar com a bebê para tirar fotos dos procedimentos, outra residente olhou para mim e perguntou se eu não iria ficar com a bebê, pois agora que ela tinha nascido era tudo para ela, que agora ninguém queria mais saber da mãe. "Quem vai querer saber da mãe?", disse ela, enquanto outra residente tentava tirar a alça da câmera do meu ombro para levar e tirar fotos da bebê. Penso sinceramente que elas estavam tentando ajudar, já que eu não poderia estar em dois lugares ao mesmo tempo.
Eu apenas respondi: "EU quero saber, uai!". Afinal, Eu estava lá para cuidar também da mãe, do pai e da acompanhante, que depois trocou comigo de lugar.
A própria doulanda depois me perguntou porque haviam tão poucas fotos e filmes. Eu expliquei a ela que seria difícil eu conseguir fazer as duas coisas. Ou eu doulava, ou eu fotografava. Já até tínhamos conversado sobre a possibilidade de ela ter uma fotógrafa no parto, mas ela mesma havia indicado que não ficaria á vontade.
Então, desculpem, mas eu escolhi - somente - Refletir!
Referências:
http://orelhasdevidro.blogspot.com.br/2013/01/brilhar-ou-refletir.html

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